Seja notificado de novas mensagens. Ativar notificações da área de trabalho.

Prof. Luis Bassanesi

Médico | Especialização em Psiquiatria 
CRM-15953
Total de Leituras: 8,992
voltar

Prof. Luis Bassanesi

Médico | Especialização em Psiquiatria 
CRM-15953

Acad. Iana Dalpiaz

Acadêmico de Medicina - UCS (Caxias do Sul-RS)
4483 visualizações - 16/08/2020
5 minutos de Leitura

A síndrome do pânico e a pandemia do COVID-19

Posição da Imagem:

Neste texto, pretendemos abordar os princípios da síndrome do pânico, e relacioná-la ao momento em que vivemos, a pandemia do COVID-19, bem como, entender de que maneira essas duas questões entram em uma linha tênue na vida tanto dos quarentenados, quanto dos profissionais de saúde.

A síndrome do pânico é um transtorno de ansiedade, que também pode ter origem genética, caracterizado por crises frequentes de medo, insegurança e sensação constante de que algo ruim irá acontecer, até mesmo sem qualquer perigo iminente. Seus sintomas podem ser físicos, como palpitações e aceleramento cardíaco, suores, formigamentos, falta de ar e tontura, ou podem ser psicológicos, como medo de morrer, medo de enlouquecer ou de ter outro ataque, confundindo o próprio indivíduo por não saber se realmente estava em risco por um suposto ataque cardíaco ou se era mais uma crise de pânico, assim como comenta Pinheiro (2004, p. 2) “Eram muito comuns relatos de pessoas que, vivendo a crise, iam parar nas emergências de alguns hospitais e escutavam dos médicos a frase: "você não tem nada!". Embora as causas dessa síndrome não sejam totalmente esclarecidas, são um conjunto de fatores, como os citados acima juntamente com o estresse constante, que resultam nessa enfermidade dos tempos atuais. 

Vivendo no século XXI, marcado pela incerteza e imprevisibilidade das relações e do futuro, temos o primeiro gatilho desencadeador da síndrome do pânico. Bem como nos mostra o sociólogo Bauman, em sua análise de que vivemos em tempos líquidos, "nada foi feito para durar", de tal forma que estamos imersos em uma sociedade de relações superficiais, recebendo cada vez mais estímulos externos que acabam nos tornando retraídos, introspectivos. Todo esse excesso de gatilhos, além de ter propiciado o stress acumulativo diário, nos deixa carentes e desabastecidos de relações funcionais de suporte, substancialmente nessa questão da síndrome do pânico.

É importante salientar que só pelo fato de estarmos vivendo este século, já nos deixa em um campo de propensão a desenvolver tal síndrome, isto, soma-se à uma pandemia devastadora que assombra os dias atuais, em que recebemos notícias de tantas vidas como a nossa, perdidas dia após dia. Um período de longo isolamento social, sem ter certeza do amanhã,  marcado pela instabilidade, e, principalmente, pela ansiedade, a ânsia e o medo de que algo ruim aconteça em um momento inesperado, logicamente, resulta no esperado: um altíssimo número de indivíduos desenvolvendo ou piorando o quadro de síndrome do pânico, os indivíduos quarentenados e os indivíduos profissionais da saúde. Segundo a OMS, o Brasil tem a maior taxa de transtorno de ansiedade do mundo. Com a questão do corona vírus, a síndrome do pânico será a doença do ano, como relatam diversos jornais e revistas.

Agora, entraremos na questão mais relevante para nossa realidade cotidiana: a importante semelhança entre os sintomas da COVID-19 e a síndrome do pânico, e como elas se confundem. O principal ponto em comum entre as duas enfermidades citadas acima é, de fato, a falta de ar. Dessa forma, normalmente começa a confusão quando o indivíduo tem dificuldade ao respirar. Consequentemente ele pensa que está contaminado, quanto mais pensa que está contaminado, mais a falta de ar aumenta, juntamente com a ansiedade, em um ciclo que aparenta ser infinito. Tal situação acontece porque no meio de uma crise, a pessoa sente-se como se não tivesse onde se segurar, vive a sensação de que aquele sofrimento é (e parece ser) eterno. Além da falta de ar, temos a semelhança de anormalidade do sistema cardiovascular, como dor no peito.

Para conseguirmos distinguir os sintomas de uma crise de ansiedade e da COVID-19 é preciso saber que os episódios de falta de ar de uma crise, são agudos, rápidos e momentâneos, enquanto que os do novo corona vírus vêm acompanhados geralmente de febre e outros sintomas. Outra dica relevante é que a falta de ar causada por uma crise não piorará com pequenos esforços, como subir alguns degraus, diferentemente da situação de COVID-19. É importante diferenciarmos tais sintomas para nossa própria saúde, principalmente agora, incluindo também todos que não são diagnosticados com ansiedade ou síndrome do pânico, ninguém está imune a esse mal.

Então, o que nos resta é saber como lidar com o momento e encontrar uma forma de adaptação à nova realidade. Cabe a nós nos auto ajudarmos, com pequenas mudanças que causam grande impacto, pois justamente elas  são a nossa forma de abastecimento para podermos enfrentar desafios e reforçar laços. Deixar nossa rotina mais leve faz parte dessas mudanças, saber controlar o pânico generalizado também. Por isso, salienta-se a importância de ser mais positivo - agradecer pelas pequenas coisas positivas do cotidiano é uma forma de controlar pensamentos desesperadores e futuras crises, apreciar a arte e a música também -, reforçar os laços familiares e se aproximar de quem ama, mesmo que virtualmente – é uma forma de acolhimento, que proporciona suporte emocional ao indivíduo -, conexão com a natureza renova nossas esperanças, caminhadas e exercícios físicos também são importantes, comprovadamente trazendo bons resultados durante tratamentos terapêuticos de síndrome do pânico. Estas mudanças buscam aliviar a forma de encarar a situação atual de isolamento, nos permitindo ter o controle de prevenção à novas crises.

Referências:

RUIZ, Pedro; SADOCK, Benjamin; SADOCK, Virgínia; Compêndio de Psiquiatria - Kaplan & Sadock: Ciência do comportamento e psiquiatria clínica. 11ª ed. Artmed, 2017. p. 1-1490.

ALBUQUERQUE, E. C. R. T. DE; OLIVEIRA, A. D. DE. O pânico na mídia - a abordagem das revistas Veja, IstoÉ, Galileu e Superinteressante sobre a síndrome do pânico. Comunicação & Informação, v. 8, n. 1, p. 53-59, 12 jun. 2013. Disponível em: https://brapci.inf.br/index.php/res/download/81322. Acesso em: 26 jul. 2020.

PINHEIRO, Marcelo. A clínica da síndrome do pânico, Rio de Janeiro, v.1, n. 1, p. 1-15, 2004. Disponível em: www.igt.psc.br/ojs/viewarticle.php?id=32&layout=html. Acesso em: 2 ago. 2020.

GAÚCHA ZH. Falta de ar é sintoma de crise de ansiedade e da COVID-19; saiba diferenciar. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/coronavirus-servico/noticia/2020/03/falta-de-ar-e-sintoma-de-crise-de-ansiedade-e-da-covid-19-saiba-diferenciar-ck8dbth0202sc01quwlpru8fa.html. Acesso em: 2 ago. 2020.

Palavras-chave:

  • COVID-19
  • Síndrome do pânico
  • ansiedade
  • isolamento
  • falta de ar

Qual sua avaliação para o texto acima?