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Liga Acadêmica de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Caxias do Sul

Curso de Medicina | Mastologia , Obstetrícia e Ginecologia , Reprodução Humana, Saúde Sexual
UCS (Caxias do Sul-RS)
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Dra. Fernanda Hopf

Médica | Especialização em Obstetrícia e Ginecologia 
CRM-21062

Acad. Eliziane Vigolo

Acadêmico de Medicina - UCS (Caxias do Sul-RS)
1506 visualizações - 24/08/2020
7 minutos de Leitura

Aborto: o que você precisa saber

O abortamento é a complicação mais comum no primeiro trimestre gestacional, ou seja, é a interrupção da gravidez antes da sua viabilidade, com o feto pesando menos que 500 gramas. Estima-se que o seu diagnóstico clínico ocorra em 12 a 15% das gestações. A incidência (novos casos) de abortamento é decrescente conforme a idade gestacional (IG), situando-se ao redor de 1% após as 16 semanas. Observe a tabela a seguir para compreender melhor. 

                                                  

                                                                   Fonte: Google (acesso livre)

- Por que o abortamento acontece?

A perda de gravidez, também conhecida como aborto espontâneo, é geralmente definida como uma gravidez intra-uterina inviável até 20 semanas de gestação, ou seja, é a morte embrionária não induzida ou a eliminação dos produtos da concepção antes de 20 semanas de gestação. A causa do abortamento, frequentemente é desconhecida, porém anormalidades cromossômicas, anatômicas maternas (miomas uterionos, pólipos, aderências ou septos) e trauma (impacto, trauma violento) podem ser algumas das possibilidades.

 

- Quais são os fatores de risco para o abortamento?

A idade materna é o principal fator de risco, devido à maior incidência de cromossomopatias (alterações no código genético do feto) com o avançar da idade da gestante. As taxas de abortamento crescem conforme a idade, podendo atingir 50 a 80% das implantações a partir dos 40 anos. Adicionado a esse fator, história de abortamento prévio, tabagismo, consumo de álcool, cocaína e anti-inflamatórios não esteroides, extremos de peso, diabetes, trombofilias herdadas e tireoideopatias também podem estar relacionadas com o abortamento.

 

- Qual é o período gestacional em que a gestante tem um maior risco de abortamento?

É mais comum no primeiro trimestre gestacional, ou seja, entre a 1-12 semanas.

 

- Qual é o quadro clínico da paciente que sofreu/sofre um abortamento?

O sintoma mais comum é o sangramento via vaginal. Importante ressaltar que o abortamento deve ser suspeitado em toda mulher em idade fértil que se apresente com sangramento via vaginal anormal. Dor abdominal de intensidade variável na parte inferior do abdome pode estar associado com o sangramento vaginal. Dor lombar, náuseas, vômitos e mal-estar podem apresentar-se em conjunto. Também, não raras vezes, algumas pacientes podem ser assintomáticas, ou seja, apresentam pouco ou nenhum sintoma, apenas com relato de sangramento.

 

- Como é feito o exame ginecológico para investigar um possível abortamento?

O médico irá fazer uma palpação no abdome para avaliar se há sinais de irritação peritoneal ou não. Com isso, avaliará as causas do abortamento ou de manipulação uterina com lesão de outros órgãos intra-abdominais. Além disso, o exame especular sempre deve ser executado, para descartar outros motivos do sangramento, e avaliar o volume de sangramento e a possível presença de material ovular. Por fim, o toque vaginal bimanual, é capaz de determinar o tamanho do útero e se o colo do útero está dilatado ou não.

 

- Como é feito o diagnóstico do abortamento?

A associação do exame físico feito pelo médico com a avaliação ultrassonográfica e a dosagem sérica da β-hCG, definem o diagnóstico e , posteriormente, classificar o quadro clínico e o manejo do abortamento.

 

- Quando uma paciente pode ter ameaça de aborto?

Todo sangramento via vaginal que ocorra até as 20 semanas, independente da intensidade, associado ao colo uterino fechado e sem critérios ultrassonográficos para definir abortamento. Esse sangramento, além de aumentar a chance de abortamento espontâneo, está associado a diversas complicações obstétricas, como: hemorragias de primeiro trimestre, ruptura prematura de membranas antes do termo, parto pré-termo e restrição de crescimento fetal. Cerca de metade das gestantes com quadro de sangramento via vaginal e colo fechado evoluirá para abortamento.

 

- Existe "microabortamento"? O que ele significa?

"Microabortamento" é um termo muito utilizado entre as pacientes quando essas procuram o ginecologista. Na verdade, essa expressão não consta tecnicamente na literatura médica, sendo considerado um vocabulário leigo, ou seja, criado pela população, e não por meios científicos. O seu significado é utilizado para descrever quando não há a nidação do óvulo no útero, mesmo que haja a fecundação. Isso quer dizer que quando o óvulo já foi fecundado pelo espermatozóide ele percorre um caminho até o endométrio, para se acoplar e desenvolver posteriormente o feto. Porém nesse "microabortamento" não ocorre a nidação,  e o óvulo será eliminado espontaneamente pelo organismo. A paciente pode ter 1 ou 2 dias de irregularidade menstrual ou atraso menstrual por conta desse fato, mas sintomas típicos de gestação não são evidenciados.

 

- Qual é o tratamento para o abortamento?

A conduta deve ser individualizada, considerando a perda sanguínea, a presença de dilatação cervical, a eliminação de produtos da gestação, a vitalidade fetal, a idade gestacional e a presença de infecção intrauterina. Há diferentes classificações do aborto, devido a sua variação no quadro clínico: ameaça de aborto, abortamento completo, abortamento incompleto, abortamento retido, gestação anembrionada, abortamento inevitável e abortamento séptico. Para cada um desses, há o tratamento adequado e que deve ser direcionado pelo médico. Normalmente, a orientação é repouso domiciliar ou mesmo hospitalar, procedimentos para esvaziamento uterino medicamentoso ou cirúrgico, suporte emocional e assim por diante.

 

- Quais são as complicações do aborto?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as complicações do aborto constituem a quarta maior causa de mortalidade materna no mundo, correspondendo por 7,9% dos casos de morte materna em levantamento realizado em 115 países.

A ocorrência de hemorragia após aborto pode ser decorrente de laceração de colo, retenção de produtos da concepção, coagulopatia e perfuração uterina. O manejo corresponderá à gravidade do sangramento, com reposição volêmica, transfusão sanguínea, reposição de fatores de coagulação, sutura de laceração, reesvaziamento uterino, uso de uterotônicos e a possibilidade de laparotomia exploradora.

Após o abortamento, pode-se ter o risco de desenvolver uma infecção. O quadro clínico é baseado em dor anexial, febre, dor à palpação uterina, dor pélvica, sangramento execessivo ou persistente, massa anexial secreção purulenta em canal endocervical e vagina e dor à mobilização do colo uterino.

 

- No Brasil, é permitido realizar aborto? Em que situações é permitido realizar aborto no Brasil?

No Brasil, o acesso ao aborto é restrito e é permitido legalmente em apenas alguns casos, como: gestação pós-estupro (violência sexual), risco de morte materna e fetal e fetos anencéfalos. As duas primeiras estão fundamentadas no Artigo 128 do Código Penal e a terceira resulta do julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF-54), pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2012 , ratificada em decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM), também em 2012, que autoriza médicos a interromperem a gravidez de fetos anencefálicos, a pedido da gestante, em qualquer momento da gravidez. Os demais motivos, sejam eles pessoais, religiosos ou culturais não são permitidos de acordo com a legislação brasileira atual e são considerados ilegais dentro da federação. Importante ressaltar que o abortamento inseguro é definido como o procedimento para interrupção de uma gestação indesejada executado por pessoa inabilitada e/ou em ambiente sem as condições adequadas de assepsia e é responsável por 13% da mortalidade materna e cerca de 5 milhões de internações hospitalares por complicações mundialmente. Por esse motivo, abortamentos em clínicas clandestinas ou procedimentos realizados pela própria gestante, a fim de cessar a vida fetal, também são proibidos legalmente e que, consequentemente, geram complicações graves para a gestante, como perfurações, hemorragias e comprometimento da vida materna.

 

Referências:

1. PRAGER, Sarah, MICKS, Elizabeth, DALTON K. Vanessa. Pregnancy loss (miscarriage): Risk factors, etiology, clinical manifestations, and diagnostic evaluation. UptoDate. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/pregnancy-loss-miscarriage-risk-factors-etiology-clinical-manifestations-and-diagnostic-evaluation?search=aborto%20espont%C3%A2neo&source=search_result&selectedTitle=2~150&usage_type=default&display_rank=2>. Acesso em: 12/08/2020

2. FONSECA, Sandra Costa et al . Aborto legal no Brasil: revisão sistemática da produção científica, 2008-2018. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro , v. 36, supl. 1, e00189718, 2020 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2020001302001&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 12/08/2020

3. BRASIL. DECRETO-LEI No 2.848, DE 7 DE DEZEMBRO DE 1940. Presidente da república do Brasil, 1940. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm>. Acesso em: 12/08/2020.

4. MARTINS COSTA, Sérgio H. et al. Rotinas em obstetrícia. 7ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2017.

Palavras-chave:

  • aborto
  • abortamento
  • legislação
  • lei do aborto
  • sangramento vaginal

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