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Dra. Cássia Elisa Marin

Médica | Especialização em Neurologia 
CRM-42767

Acad. Jessica Schiavenin

Acadêmico de Medicina - UCS (Caxias do Sul-RS)
766 visualizações - 30/04/2020
6 minutos de Leitura

COVID-19 e Manifestações Neurológicas

A descoberta recente do novo vírus SARS-CoV-2, causador da doença COVID-19, ganhou as manchetes dos noticiários em todo o mundo, principalmente após a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarar o estado de pandemia, no dia 11 de março de 2020. Quase dois meses após, iniciamos a última semana de abril com mais de 3 milhões de casos no mundo, contabilizando mais de 200 mil mortes pela doença. Há alguns meses, devido à grande capacidade de contaminação e às taxas de mortalidade da infecção, boa parte dos profissionais da saúde e comunidades científicas tem dedicado tempo exclusivo para o assunto, com o objetivo de conhecermos melhor o funcionamento do vírus, suas manifestações, as possíveis sequelas que ele pode deixar, de que forma podemos diminuir ou até preveni-las, bem como formas de tratamento e vacinas que possam ajudar a melhorar o atual cenário.

 

Além dos sintomas sistêmicos e respiratórios já conhecidos, alguns trabalhos recentemente publicados demonstraram relação da COVID-19 com manifestações neurológicas. A associação do vírus com a neurologia já era esperada por pesquisadores, visto que, ainda em janeiro deste ano, foi reconhecido que um dos sítios de ação do SARS-CoV-2 são estruturas específicas que ficam ao redor das células (chamadas de receptores ACE2 – enzima conversora de angiotensina 2), as quais também estão presentes nos tecidos cerebrais e musculares, tornando-se alvos da infecção viral. 

 

Um estudo que avaliou pacientes internados pela doença em um hospital de Wuhan, na China, descreveu manifestações neurológicas em cerca de 36% dos casos, sendo mais comuns em pacientes com quadros respiratórios mais graves. Os principais sintomas descritos foram:

· Tontura em 16.8% dos casos.

· Dor de cabeça em 13.1% dos casos.

· Fadiga e dano muscular em 10.7% dos casos.

· Redução do paladar em 5.6% dos casos.

· Redução do olfato em 5.1% dos casos.

· Dor neuropática (dor que se origina no nervo periférico) em 2.3% dos casos.

Complicações mais graves e tardias também foram relatadas, como:

· Alterações de sensório ou de consciência em 7.5% dos casos.

· Doenças cerebrovasculares (como AVC ou popularmente conhecido como “derrame”) em 2.8% dos casos.

· Crises convulsivas em 0.5% dos casos.

 

Alguns sintomas, em outros estudos, apresentaram-se com maior frequência. Como é o caso da redução do olfato e do paladar no decorrer da doença. Em um trabalho realizado pela Universidade da Califórnia, o comprometimento da percepção de cheiros estava presente em 68% dos pacientes com COVID-19, e o comprometimento do paladar em 71%. Uma parte deste estudo foi realizada para verificar a prevalência destes mesmos sintomas em pacientes com outras síndromes gripais (como a Influenza), que não tinham a COVID-19, sendo que nestes, a redução do olfato estava presente em apenas 16% e do paladar em 17% dos casos. Grande diferença, não?!

 

Acredita-se que alguns sintomas, como crise convulsiva, dor de cabeça e alteração do nível de consciência, ocorram por atuação direta da infecção no cérebro, diferente de outros, como o AVC, que parecem ocorrer por alterações como aumento da viscosidade do sangue causado pelo vírus (estado de hipercoagulação).

Estudos iniciais demonstraram maior ocorrência de complicações neurológicas em pacientes com COVID-19 com idade superior a 60 anos e presença de outras doenças cardiovasculares. Entretanto, um trabalho escrito por médicos de um hospital da Nova Iorque, e publicado no final deste mês de abril, conta detalhes de cinco casos de pacientes jovens (com menos de 50 anos), com poucas ou nenhuma doenças prévias, positivos para COVID-19, e que apresentaram quadro de AVC grave (entupimento de uma artéria de grande calibre no cérebro) ainda na chegada à emergência do hospital. Destes cinco pacientes, apenas dois apresentavam algum tipo de sintoma típico para a infecção viral nos dias que antecederam o AVC.

Relatos de casos com outras complicações neurológicas graves também foram descritos, incluindo Síndrome de Guillain-Barré (confira post anterior sobre o assunto), repetidas crises convulsivas e meningoencefalite viral (infecção do cérebro e das estruturas que o envolvem pelo vírus).

 

Estes estudos divulgados levantam uma grande probabilidade de associação da COVID-19 com sintomas e complicações neurológicas, que variam de leves a graves, em uma frequência bastante preocupante. Além disso, o conteúdo aqui exposto reforça a ideia de que ainda há muito para descobrirmos sobre a doença e suas repercussões a curto e longo prazos.

 

O número de casos tem crescido de forma alarmante nas últimas semanas de abril, principalmente no Brasil. Por isso, acreditamos na importância de enfatizar sempre as medidas de prevenção à doença:
· Sempre que puder, pratique o isolamento social e o distanciamento interpessoal.
· Lave as mãos com frequência, com água e sabonete/sabão, por pelo menos 20 segundos, certificando-se de que todas as superfícies das mãos foram bem higienizadas.
· Quando não puder lavar as mãos, utilize álcool em gel 70%.
· Use máscara ao sair em público, que cubra bem o nariz e a boca.
· Evite levar as mãos ao rosto, nariz, boca e olhos.
· Sempre que precisar espirrar ou tossir, cubra a boca e o nariz antes (de preferência, sem utilizar as suas mãos).
· Procure desinfetar objetos e superfícies tocados com frequência ou trazidos de fora para dentro de casa.
· Se você apresentar qualquer sintoma da doença, evite ao máximo exposição pública (exceto se necessidade de avaliação hospitalar por piora dos sintomas).
· Cuide da sua saúde e da saúde de todos ao seu redor.

 

REFERÊNCIAS

1- Mao L, Jin H, Wang M, et al. Neurologic Manifestations of Hospitalized Patients with Coronavirus Disease 2019 in Wuhan, China. JAMA Neurol, published online April 10, 2020. doi:10.1001/jamaneurol.2020.1127

2- Herman C, Mayer K, Sarwal A. Scoping review of prevalence of neurologic comorbidities in patients hospitalized for COVID-19. Neurology, published online April 28, 2020 DOI 10.1212/WNL.0000000000009673

3- Helms J, Kremer S, Merdji H, et al. Neurologic Features in Severe SARS-CoV-2 Infection. N Engl J Med, published online April 15, 2020. DOI: 10.1056/NEJMc2008597

4- Liu K, Pan M, Xiao Z, Xu X. Neurological manifestations of the coronavirus (SARS-CoV-2) pandemic 2019-2020. J Neurol Neurosurg Psychiatric, published online April 20, 2020. doi:10.1136/jnnp-2020-323177

5- Yan CH, Faraji F, Prajapati DP, et al. Association of Chemosensory Dysfunction and Covid-19 in Patients Presenting with Influenza-like Symptoms. Int Forum Allergy RH, published online April, 2020. DOI: 10.1002/alr.22579

6- Oxley TJ, Mocco J, Majidi S, et al. Large-Vessel Stroke as a Presenting Feature of Covid-19 in the Young. N Engl J Med, published online April 28, 2020. DOI: 10.1056/NEJMc2009787

7- Toscano G, Palmerini F, Ravaglia S, et al. Guillain-Barré Syndrome Associated with SARS-CoV-2. N Engl J Med, published online April 17, 2020. DOI: 10.1056/NEJMc2009191

8- Moriguchi R, Harii N, Goto J, et al. A first case of meningitis/encephalitis associated with SARS-Coronavirus-2. Int J Infect Dis, Mar 2020; 94 (2020) 55–58. DOI: 10.1016/j.ijid.2020.03.062 

Palavras-chave:

  • COVID-19
  • SARS-CoV-2
  • COMPLICAÇÕES
  • RELAÇÃO
  • NEUROLOGIA

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