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Dra. Cássia Elisa Marin

Médica | Especialização em Neurologia 
CRM-42767

Acad. Cristian Pigato

Acadêmico de Medicina - UCS (Caxias do Sul-RS)
2692 visualizações - 13/08/2020
7 minutos de Leitura

Como a Arte afeta o nosso Cérebro?

     Há muito tempo, é estudada a associação da arte com a neurologia, sendo esta relação bidirecional. Ou seja: a arte em si (representada através de pinturas, esculturas, desenhos, escrita, dança, música e trabalhos manuais diversos, que envolvem criatividade) afeta diretamente o nosso cérebro, e o nosso cérebro, em si, afeta o modo como desenvolvemos o processo criativo individual.


     Doenças do sistema nervoso central já foram assuntos de obras de diversos artistas, os quais passaram para a tela ou o papel os sintomas ou até mesmo as dificuldades que a doença em questão proporcionou. Exemplos como Sarah Raphael (1960-2001), J.J. Ignatius Brennan (n. 1949) e o pintor surrealista italiano Georgio de Chirico (1888-1978) sofriam de enxaqueca e retratavam imagens em zigue-zague, as quais são características da fase de aura (sintomas visuais em forma de raios, pontos ou zigue-zagues brilhantes que surgem antes do início da crise de enxaqueca). Em outro exemplo, o artista que fundou o vorticismo, Percy Wyndham Lewis (1884-1957), desenvolveu um tumor pituitário (localizado em uma glândula cerebral chamada hipófise), o qual levou o artista a precisar manter o rosto perto da tela para pintar, devido à redução de visão causada pelo tumor.

     Peter MacKarell (artista inglês, falecido em 1988) mudou sua arte devido ao diagnóstico de esclerose múltipla, e após adquirir paralisia da mão que usava para pintar, precisou se adaptar e aprender a pintar com a mão contralateral. Além disso, possuía um escotoma central direito (mancha preta no campo visual do olho direito), que também passou a influenciar suas pinturas. John Paterson (artista escocês, falecido em 1998), que foi diagnosticado com doença de neurônio motor (ou Esclerose Lateral Amiotrófica), refletia em suas pinturas seu amor pelo campo. Contudo, com a progressão da doença, notou-se uma compreensível negligência de detalhes nas obras. Lovis Corinth (1858-1925), Otto Dix (1891-1969) e Anton Räderscheidt (1892-1970) sofreram um Acidente Vascular Cerebral que lhe proporcionaram como sequela o que chamamos de heminegligência. Esta sequela faz com que o indivíduo “ignore” um lado do corpo ou do ambiente. As obras destes três artistas passaram a apresentar defeitos de um lado específico da tela. Além disso, você sabia que Salvador Dali (1904-1989) teve doença de Parkinson e depressão leve? Felizmente, mesmo com os tremores, estes não interferiam tanto em suas pinturas finais. Por último, não poderíamos deixar de citar o famoso pintor europeu Vincent Van Gogh (1853-1890), o qual apresentava flutuações de sintomas de depressão e epilepsia, influenciando o modo com que via o mundo e as diferentes fases das cores usadas em seus trabalhos. Além disso, passou por períodos terríveis de angústia e desaprovação secundários às doenças, os quais geraram momentos difíceis ao artista levando a ações extremas como cortar a própria orelha.


     Por outro lado, você já se perguntou sobre os benefícios que arte pode gerar ao nosso cérebro?

     Podemos dizer que o cérebro humano pode ser modificado tanto em processos de doenças, quanto durante atividades repetidas. Chamamos isso de neuroplasticidade. Apesar de ser uma linha em contínua investigação (e de difícil avaliação científica), alguns benefícios neurológicos gerados pela arte já foram divulgados em estudos prévios.

     Um estudo realizado na Universidade de Lesley, nos Estados Unidos, mostrou benefício da arteterapia em mudanças de comportamento em pacientes veteranos de guerra que sofriam de Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT). Antes de tudo, vamos conceituar este termo: o TEPT, segundo a American Psychiatric Association (APA), é o desenvolvimento de sintomas psiquiátricos característicos após a exposição a um ou mais eventos traumáticos, caracterizado por episódios nos quais o paciente revive sentimentos relacionados ao trauma. Quando avaliamos pacientes com TEPT, há acometimento de algumas áreas cerebrais específicas e que fazem parte do sistema límbico (circuito relacionado com as emoções, comportamento social e substâncias de recompensa), levando a uma maior ativação deste sistema. Esta ativação, nos quadros de TEPT, causa déficits de atenção e atraso no processamento a determinadas situações, bem como diminui a habilidade de responder de maneira emocionalmente regulada a um estímulo traumático. Além disso, ao longo do tempo, há redução de volume em uma área cerebral chamada hipocampo (local em que há muitos receptores de cortisol - o hormônio do “estresse”).

     Este estudo norte-americano demonstrou que as áreas cerebrais ativadas durante os sintomas de TEPT comparam-se as mesmas áreas cerebrais ativas durante estímulos ao verbais e cognitivos do processamento de informações, os seja, estímulos também relacionados à arte. Então, os autores concluíram que a arteterapia melhorou, de forma significante, a neuroplasticidade e os sintomas associados ao trauma nos soldados veteranos avaliados.

     Outro trabalho, realizado na China, em Beijing, estudou 28 pacientes aposentados e como a produção de arte e a avaliação de obras artísticas podem mudar o cérebro. O estudo foi baseado em outras pesquisas que demonstram que a arte visual tem efeitos estabilizadores sobre as pessoas, reduzindo angústias, aumentando a autorreflexão e o autoconhecimento, alterando positivamente o comportamento e padrões de pensamento, além de normalizar a frequência cardíaca, pressão arterial e até mesmo os níveis de cortisol. Somado a isto, as experiências com artes visuais ativam o circuito neurológico de recompensa e influenciam áreas cerebrais específicas, como a rede de modo padrão (sigla em inglês – DMN). Mas o que é DMN? É uma rede neuronal que se conecta com várias outras regiões cerebrais e que está relacionada ao desempenho de tarefas externas e internas, bem como à ação de pensar no outro e refletir sobre si mesmo, de recordar o passado e de planejar o futuro. Doenças, como doença de Alzheimer e doença do espectro autista, geram algumas alterações nesta rede neuronal, dificuldade o processo de insight, empatia, memória e planejamento. Este estudo chinês avaliou, através de testes psicológicos e de estudo de Ressonância Magnética de crânio, a relação da produção de arte visual com mudanças comportamentais funcionais e resiliência (capacidade de superar momentos desafiantes). O estudo conclui que há um melhor padrão de resiliência em pacientes expostos à produção de arte visual, bem como uma maior conectividade e funcionamento da DMN. Nas avaliações das imagens de ressonância cerebral, houve aumento de volume cerebral bilateral nas regiões relacionadas ao sistema límbico, córtex parietal e frontal. Além disso, os autores enfatizaram que a criação de arte visual funciona como uma experiência integrativa individual, desenvolvendo a expressão pessoal, melhorando o foco em autoconhecimento e aprimorando o processamento de memória, podendo tornar-se uma importante ferramenta de prevenção no desenvolvimento de doenças crônicas em idosos e na população em geral.

     Outros estudos publicados demonstraram que o mecanismo pelo qual o processo artístico proporciona benefícios ao cérebro envolve diretamente a criatividade e sua flexibilidade. Megan Carleton, terapeuta artística filiada ao Massachusetts General Hospital (MGH) na Escola de Medicina de Harvard, em seus estudos, enfatiza que o benefício da criatividade não é dependente da habilidade ou de talentos individuais, mas é diretamente proporcional à tentativa e ao processo. Além disso, a produção de arte, hoje, pode ser usada como auxílio na prevenção e no tratamento de doenças como demências, câncer, dor crônica, depressão e ansiedade.


     E aí? Que tal pegarmos um papel, tela, barbante, argila, dançar, cantar e tentar algo que saia um pouco da rotina?

     “A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível.” (Leonardo da Vinci)



     REFERÊNCIAS

1 Weber K. The Study of Neurological Response in Art Therapy and Trauma: A Literature Review. Expressive Therapies Capstone Theses, 2019; 173.

2 Emery, AEH. How neurology disease can affect na artist;s work. Pract Neurol, 2004; 4:366-371.

3 Bolwerk A, Mack-Andrick J, Lang FR, Dorfler A, Maihofner C. How Art Changes Your Brain: Differential Effects of Visual Art Production and Cognitive Art Evaluation on Functional Brain Connectivity. PLOS ONE, 2014; 9(7):e101035.

4 Zaidel DW. Creativity, brain and art: biological and neurological considerations. Front Hum Neurosci, 2014. 8:389.

Palavras-chave:

  • arte
  • cérebro
  • estresse
  • transtornos
  • mente

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